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Fotoqueratite: a queimadura solar dos olhos que ninguém espera

Um dia de praia ou de barco sem óculos pode dar, horas depois, dor intensa e sensação de areia nos olhos. Explicamos o que é, porque só aparece à noite e o que fazer.

Medical Óptica4 min de leitura
Reflexo intenso do sol na superfície do mar ao meio-dia

Passou o dia na praia, ou num barco, ou a fazer caminhada na montanha. À noite, os olhos começam a arder. Sensação de areia, lacrimejo, dor que aumenta, luz insuportável.

Não é conjuntivite, nem areia que ficou. É uma queimadura solar — nos olhos.

O que é

A radiação ultravioleta afeta a córnea da mesma forma que afeta a pele. Quando a exposição é intensa e prolongada, as células da superfície da córnea sofrem lesão e morrem, expondo as terminações nervosas por baixo.

Chama-se fotoqueratite, e a córnea é um dos tecidos mais inervados do corpo. É essa a razão de a dor ser desproporcional à gravidade real.

Na neve, o mesmo fenómeno tem nome próprio: cegueira das neves.

Porque acontece no verão sem se dar por isso

O que apanha as pessoas é a reflexão.

Uma boa parte da radiação que atinge os olhos na praia não vem diretamente do céu — vem refletida de baixo. A areia clara reflete uma fração significativa da radiação ultravioleta, e a água mais ainda, sobretudo quando o sol está alto.

Isto significa duas coisas práticas. Primeiro, que um chapéu sozinho não chega, porque protege de cima e não de baixo. Segundo, que estar debaixo de um chapéu-de-sol não elimina o risco.

Situações típicas:

  • Um dia inteiro de praia sem óculos de sol
  • Passeio de barco, com reflexo da água em todas as direções
  • Montanha e neve, onde a altitude aumenta a radiação e a neve reflete quase tudo
  • Soldadura sem proteção adequada, que provoca exatamente o mesmo quadro
  • Camas de bronzeamento sem proteção ocular

Os sintomas e o atraso

O que confunde é o desfasamento. Os sintomas surgem tipicamente seis a doze horas depois da exposição, tal como um escaldão que só arde ao fim do dia.

Como isso costuma coincidir com a noite, muita gente não associa ao dia de praia e assusta-se com o que julga ser uma infeção súbita.

Sintomas habituais:

  • Dor ocular intensa, nos dois olhos
  • Sensação forte de areia ou de corpo estranho
  • Lacrimejo abundante
  • Vermelhidão
  • Sensibilidade extrema à luz
  • Pálpebras inchadas e dificuldade em manter os olhos abertos
  • Visão turva
  • Por vezes, sensação de perda temporária de visão

O que fazer

  • Sair da luz. Ambiente escuro ou penumbra.
  • Retirar lentes de contacto, se as usar, e não voltar a colocá-las até estar completamente recuperado.
  • Não esfregar os olhos, por muito que apeteça. Esfregar agrava a lesão.
  • Compressas frias sobre os olhos fechados, que aliviam bastante.
  • Lágrimas artificiais para lubrificar.
  • Analgésico oral, se necessário.
  • Não usar colírios anestésicos. Aliviam de imediato mas atrasam a cicatrização e podem causar lesão adicional.

A recuperação costuma ser completa em 24 a 48 horas, sem sequelas.

Quando procurar ajuda médica

  • Se a dor for muito intensa ou não aliviar
  • Se ao fim de dois dias os sintomas persistirem
  • Se houver alteração da visão que se mantém
  • Se usava lentes de contacto na altura da exposição
  • Se houver secreções ou suspeita de infeção associada
  • Se houver dúvida sobre se entrou algo no olho

Um profissional consegue confirmar o diagnóstico e excluir uma abrasão ou uma infeção, que se tratam de forma diferente.

O que importa de verdade: as vezes seguintes

Um episódio isolado resolve-se e não deixa marca. O problema é o padrão.

A exposição ultravioleta acumula-se ao longo da vida e está associada a cataratas mais precoces, a alterações da superfície ocular como o pterígio, e a lesões das pálpebras. Cada episódio de fotoqueratite é sinal de uma dose elevada de radiação — e essas somam-se.

A prevenção é simples e conhecida:

  • Óculos de sol com 100% de proteção UV, sempre que estiver ao sol
  • Formato envolvente, que bloqueie a radiação refletida de baixo e de lado
  • Chapéu de aba larga, como complemento e não como substituto
  • Atenção redobrada perto de água, areia clara e neve
  • Proteção adequada nas crianças, que são mais vulneráveis

Se ainda não tem uns óculos de sol certificados, ou se os que tem são de origem duvidosa, passe pela loja. É das coisas mais baratas que pode fazer para proteger a visão a longo prazo — e evita uma noite muito má.

Perguntas frequentes

O que é a fotoqueratite?

É uma queimadura da superfície da córnea causada por radiação ultravioleta, equivalente a um escaldão na pele. Acontece tipicamente após várias horas de exposição intensa e refletida — praia, barco, neve — sem proteção ocular adequada.

Porque é que os sintomas só aparecem horas depois?

Porque a lesão das células da superfície da córnea demora a manifestar-se, tal como um escaldão na pele só arde ao fim do dia. Os sintomas surgem habitualmente seis a doze horas após a exposição, o que costuma corresponder à noite — daí a pessoa raramente ligar uma coisa à outra.

A fotoqueratite deixa sequelas?

Na maioria dos casos não. A córnea regenera-se depressa e a recuperação completa costuma acontecer em 24 a 48 horas. O problema é a exposição repetida ao longo dos anos, que contribui para cataratas mais precoces e para alterações permanentes da superfície ocular.

Cuide da sua saúde ocular

Uma avaliação visual completa é o primeiro passo para detetar alterações antes de darem sintomas. Marque a sua consulta.